O volume do silêncio é o título da crônica de Gabriel Chalita

O volume do silêncio

Por Gabriel Chalita

Minha filha não se entende com a felicidade. Não diz os sentimentos. Desperdiça o perdão.

Converso com ela, com algum cuidado. Gosta nada de ser contrariada. Sei que ela e João se amam. Pena estarem distantes. Ele fez de tudo para voltarem. Ela disse ‘não’ querendo ter dito ‘sim’. Chegou a me confessar entre dúvidas. “É bom ter dúvidas”, foi o que eu disse. 

Pedro e eu fomos casados por quase 40 anos. Éramos tão diferentes. Poderíamos ter desistido, mas escolhemos nos amar. O amor é, sim, também uma escolha. Escolhemos nos amar mesmo em tempos ruins. 

Pedro viajava muito, vendia tecidos e, também, simpatia. Era, certamente, convidado a outras experiências, mas escolheu permanecer.  Eu, também, tive outros convites. Sempre fui uma mulher interessante. Bonita, por que não? Tenho mais de sessenta e, quando me olho, gosto de como sou.  No passado, então, “eu fechava quarteirões”, era o que vociferava Pedro, meu marido, orgulhoso da beleza da própria mulher. 

Digo a minha filha sobre desentendimentos. Sugiro alguns passos. Solto frases que marcaram uma história que existiu e que deu certo. Uma das vezes em que eu tive dúvidas, ainda nos inícios, ainda sem filhos, Pedro me recobrou os pensamentos dizendo, “Você pode escolher me amar acima das minhas imperfeições”.  Eu disse nada. Ele prosseguiu, “Fique e superaremos  juntos esse medo”.

Tive medos, sim, e não foram poucos. Medos dos dias prolongados quando eu estava triste. Minha mãe terminou o seu tempo regada a depressão. Temia que acontecesse comigo.

Meu filho mais velho é chegado à vida. Aprendeu a não discutir com o destino, embora nele não acredite. Vai vivendo de acontecer. São irmãos e são tão diferentes.

Disse à minha filha outra frase do meu marido, seu pai, “Desliguei os ouvidos e aumentei o volume do silêncio”. Foi quando os irmãos dele brigaram pelo que ficou de herança do pai. Ele queria o pai, não a matéria, não o metal que se perde. E o pai estava nele. Somos pedaços dos nossos, mas vamos discernindo os pedaços bons para vivermos melhor. 

Quando Pedro morreu, eu estava com ele. Rezei com ele os últimos suspiros. Sofri, agradecendo. Que bom que permanecemos, que nos demos a chance da felicidade. 

O que pode uma mãe ensinar a uma filha que já beira os 40? Ela é mulher feita. Talentosa, sem acreditar. Boicota a si mesma, parece não registrar o direito de ser feliz. E, por isso, escolhe por teimosia, não por amor. 

Sei que é errado comparar os irmãos. Cada um carrega a unicidade da existência. Mas que mãe não sonha com a felicidade para os seus? Falei, ontem, com João. Pedi que o amor se alimente de paciência e compreensão. Ele sorriu esperançoso. 

Resolvi rezar para que minha filha compreenda que desperdiçar um homem bom não é prova de sensatez. Maria Fernanda há de dizer ‘sim’, quando quer dizer ‘sim’. E se ajeitar com a felicidade.

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantonio60

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