O jogo da vida – crônica de Gabriel Chalita

Por Gabriel Chalita

Dezembro não é um mês que me desperta alegrias. Digo isso não como um manifesto contra as festas que se aproximam. Sou dos que rezam a vida e que celebram os acontecimentos que nos fazem mais elevados diante do sagrado mistério do existir. O menino Jesus nascendo em uma manjedoura, em uma simplicidade de uma noite fria, sempre me comoveu,

Faz frio em dezembro naquelas terras do oriente. Faz frio em mim.

Foi em um dezembro que ela decidiu que não combinávamos.
Acordou aturdida a viver um amor, foi o que me disse, enquanto arrumava sua saída. Eu disse nada. Os anos em que estivemos juntos beiravam à perfeição. Era o que eu me dizia.

Não a conheci menino. Nem no auge. Já havia deixado os campos de futebol e já não mais despertava os interesses de quando eu fazia gols, em domingos quentes, em estádios lotados.

Comecei cedo, passei de clube em clube, ganhei muito dinheiro, acreditei que o sucesso era eterno. Despi-me da minha melhor parte, quando vesti a camisa de campeão. Eu era um ídolo. Eu era imortal, aos vinte e poucos anos. E fui morrendo.

No jogo de despedida, eu nada entendia de despedidas. E os convites foram se rarefazendo. E os aplausos, também. E, então, convidei a bebida para estar comigo. Para ouvir as histórias que eu tinha para contar. Para destruir, todo dia, um pouco da tal imortalidade.

Foi na sujeira que conheci Helena. Sua graça fez dança comigo. E nos amamos como adolescentes que não éramos. E nos juramos uma história sem fim. Sem filhos, nos filiamos ao discurso de nos dedicarmos um ao outro. Esqueci os que de mim se esqueceram. Helena bastava.

Risos sem razão. E quem precisa de razão para rir?! Peraltices de mulher feita. Era menina em mim. Surpresas em dias comuns.
Do estádio de futebol ao pódio de um sentimento de amor que ressignifica os dias.

E, então, surgiu o dia em que ela disse pouco e partiu. Soube que se apaixonou. Que ficou por um tempo dividida. Que ainda me amava, quando se amou a outro. Que demorou a se decidir. Que não quis viver duplicidades.

Foi em um dezembro que a porta da casa se fechou. Faz alguns anos. O perfume de Helena ainda impede outro amor de viver comigo. Vez em quando, me enrosco para espantar a solidão. Deito acompanhado, na ilusão de que já estou pronto para amar novamente. Finjo satisfação, elogio quem acabou de chegar. E acordo querendo nada, apenas esperar.

Em dias de derrota no campo, eu esperava o próximo jogo. Ia inteiro para fazer o que eu sabia fazer. E o grito de gol renascia em mim o gosto de viver. Mas não é disso que me lembro agora. Colecionei títulos nos gramados. No jogo da vida, só fui campeão com ela.

Vou segredar uma intenção, aguardarei o quanto for para ter Helena de volta. E nada direi, se ela voltar. Abrirei o imortal sorriso que aguarda em mim sua presença.

Quem sabe ela se canse do outro. Quem sabe ela se lembre do quanto fomos felizes. Quem sabe a porta se abra. Nunca troquei a fechadura nem exigi as chaves de volta. Quem sabe ela entre, rindo sua meninice e jurando nunca mais partir.

A esperança sempre esteve comigo. Só ela.
Os outros se foram…

Gabriel Benedito Issaac Chalita, é um advogado, palestrante, professor, escritor. É professor de Filosofia do Direito na Pontifícia Universidade Católica e na Universidade Mackenzie, ambas instituições da cidade de São Paulo.

Sobre joaoantonio60

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