Henri Rousseau e seu quadro “Tigre Numa Tempestade Tropical (ou Surpresa)” – Lindo histórico, bela obra!

Auto-retrato de Henri Rousseau

Por Manuel SantAna

Henri Rousseau, conhecido como le douanier, não começou a pintar antes dos 30 anos e o seu primeiro quadro só foi exposto aos 41. Alfandegário de profissão, esperou pela reforma para se dedicar por inteiro à pintura.

Rousseau era um autodidacta e nunca teve formação académica. Tudo o que pintou foi fruto de uma sensibilidade jactante aliada à pureza ingénua com que bordava a pintura. E se Rousseau era apreciado por alguns pintores seus contemporâneos – e que o apadrinharam, como é o caso de Paul Gauguin – outros houve que gostavam de ver as suas obras expostas para se poderem rir da ignorância do aduaneiro naïf.

Toulouse-Lautrec terá estado entre estes. Mas a história veio fazer jus à mestria por detrás do primitivismo de Rousseau e hoje os seus quadros selváticos são famosíssimos, surgindo com frequência em ilustrações e gravuras.

Henri–Julien Félix Rousseau (França, 1844-1910)
Tigre numa Tempestade Tropical (Surpresa!), 1891
Óleo sobre tela, 129,8 x 161,9 cm
The National Gallery, Londres

Em “Tempestade Tropical com Tigre (Surpresa!)” impressiona a forma intensa e cativante como o pintor nos transporta a um ambiente tropical e selvagem. Foi com este quadro que Rousseau se apresentou no 7º Salão dos Independentes no ano de 1891. Aliás, esta foi a sua primeira obra tendo como pano de fundo a selva, tema esse que iria acompanhar a maior parte da produção dos últimos anos do artista.

Dois aspectos cénicos chamam de imediato a atenção: o horror ao vazio e a sensação de movimento. O quadro foi concebido forma a não deixar espaços vazios e de tal modo imbuído de dinamismo que nos empurra o olhar para além do canto inferior direito da tela. Torna-se de imediato perceptível que um vento tempestuoso ameaça arrancar ramos e folhas, ao mesmo tempo que a chuva cai copiosamente. A vegetação multicolor verga-se perante a força da tempestade; de repente, um relâmpago rasga o céu plúmbeo e ilumina a cena. Surpreendido e assustado um tigre, que de temível predador passou a vulnerável presa, procura refúgio.

Ao contrário do que disse naquela altura Félix Vallotton sobre esta tela num artigo na Gazette de Lausanne de que o tigre surpreende uma presa que nos é invisível pelas folhas, eu não a vejo como uma cena de caça. Que necessidade teria o autor em retratar o tigre a caçar no meio duma tempestade vertiginosa? E porque não mostra ele a presa? A expressão facial do tigre e a garupa encolhida não revelam determinação em predar mas sim terror por fugir.

As cenas de caça entre animais selvagens, feitas mais de uma década depois, são estáticas, o céu é transparente e a presa ou já foi caçada ou está na iminência de o ser. Ao contrário de “Surpresa!”, nelas não há movimento, só expectativa.

Rousseau nunca admitiu quais as suas fontes de inspiração mas podemos deduzir: a vegetação tropical parece ser uma adaptação da flora do Jardim Botânico de Paris, os animais são baseados em ilustrações infantis, enquanto que os seus movimentos fazem lembrar as pinturas animalistas de Delacroix. Rousseau consegue de forma simples e directa transportar-nos para uma dimensão fantástica e irreal, fruto da sua prodigiosa imaginação.

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