Opinião de Paola Minopre: Enquanto o presidente passeia de jet ski, o Brasil chora seus 11 mil mortos

deboche do presidente face à tristeza do povo é absolutamente surreal, indissimulável. O “cala a boca” desta semana não foi só por falta de argumento, mas foi uma clara manifestação de apoio ao retrocesso democrático e uma total inabilidade de administrar o sofrimento do seu povo. Não foi desespero, inconformismo ou incredulidade. Foi autoritarismo, manifestação de supremo poder, de força bruta!

Cala a boca?

La ferme! Ta gueule! Estas expressões francesas significam a mesma coisa: Cale a boca! Tão fortes como em português, são usadas de maneira popular e agressiva, quando já não se tem mais argumentos. Nesta época de coronavírus, onde não há tempo para o paliativo antes da morte, repentina e isolada, até entendo que o desespero, o inconformismo e a incredulidade possam vir à tona e nos fazer perder as estribeiras.

Mas, pera aí! Quem está desesperado, inconformado ou incrédulo?

Temos, por exemplo, tantas pessoas chegando ao mesmo tempo nos hospitais, com a mesma doença, com igual necessidade. Da correria do corpo hospitalar ao afastamento da família e dos entes queridos, isso sim é desesperador. Dos ricos aos sem eira nem beira, sejam eles pacientes ou médicos, idosos ou bebês, de toda raça, todos iguais nesta desgraça pública causada pelo coronavírus.

Cada dia que passa, ouvimos inconformados um novo anúncio da contagem de vítimas da Covid-19. O número de doentes que saem da reanimação custa a diminuir. Que rude constatação é esta de saber que se morre tanto pelo coronavírus como pela falta de respiradores e de leitos, por baixas nas equipes médicas e por falta de bom senso? Sim, porque em tempos não epidêmicos há esperança e armas para a cicatrização dos pulmões. A realidade hoje é bem diferente! Não há tempo pra nada, só pra morrer.

Nem cem dias foram necessários para chegar ao primeiro milhão de pessoas contaminadas. Hoje, 4 milhões de casos de coronavírus estão distribuídos em 187 países e 300 mil já pereceram. Enquanto o presidente brasileiro tem seu ego sustentado por algumas carreatas e aglomerados de ignóbeis, passeia de jet ski travestido de salvador da pátria, gargalhando tanto da epidemia como da economia, o Brasil sai do silêncio das ruas e chora seus 11 mil mortos.

E se morre tanto no hospital como em casa, na capital ou no interior, em cidades pequenas ou grandes, nas ruas, nos becos, de norte a sul do país. Não é possível que isso passe desapercebido. Agora, assistimos a este horror… incrédulos.

deboche do presidente face à tristeza do povo é absolutamente surreal, indissimulável. O “cala a boca” desta semana não foi só por falta de argumento, mas foi uma clara manifestação de apoio ao retrocesso democrático e uma total inabilidade de administrar o sofrimento do seu povo. Não foi desespero, inconformismo ou incredulidade. Foi autoritarismo, manifestação de supremo poder, de força bruta!

Olha, senhor presidente, cala a boca já morreu, já dizia o provérbio popular da nossa infância. Quem manda na minha boca sou eu, completou outro dia o Luís Gustavo Góes, coronavirologista, que trabalha na equipe da força-tarefa que eu coordeno. E ele tem razão. Nós não nos calaremos, inconformados, incrédulos. Somos cientistas, engajados, preocupados com o benefício da saúde das pessoas.

Não é necessário forçar a infecção de 70% da população para atingir a resistência contra o coronavírus, o sistema de saúde explodiria e isso levaria milhões de brasileiros à morte em poucos dias, senhor presidente! A memória imunológica é também atingida pela vacinação ou pela experiência gradual do sistema imune, de maneira ampla, irrestrita e sem massacre. É por isso que se deve dar tempo aos cientistas. Para que entendam porque uns ficam bem doentes, sensíveis à doença, e outros não, os resistentes.

Por enquanto, evitar a exposição e a transmissão é a melhor maneira de se respeitar o principio da precaução que significa ter cautela. Assim, senhor presidente, é muito mais prudente pensar agora nas possíveis consequências de suas falas e decisões erradas, dos seus mandos e bravuras, do que se dar conta mais tarde do quanto esteve errado. O princípio da precaução é a espinha dorsal das políticas de saúde pública.

Em suma, em crises sanitárias como esta que estamos vivendo, trata-se de inclinar a balança em favor da saúde e da vida, que o senhor parece ignorar em favor do desenvolvimento econômico. O coronavírus mata. Portanto, a responsabilidade do Estado está engajada, senhor presidente. Assim como a sua, não esqueça!

Paola Minoprio é diretora de pesquisa do Instituto Pasteur de Paris, coordenadora da Plataforma Cientifica Pasteur – USP, conselheira de comércio exterior da França.

Texto publicado originalmenjornal Folha de São Paulo. Acesse: https://www.folha.uol.com.br

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